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"Um País se faz com homens
e livros"
Monteiro Lobato
Escritor de alcance
internacional, o
baiano Jorge Amado
dá nome ao prêmio
literário
instituído pelo
congresso Nacional.
Jorge Lindsay

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Já
não era sem tempo e... antes tarde do que nunca. Por
decreto do congresso nacional foi instituído o Premio
Jorge Amado de Literatura Brasileira, a ser concedido, anualmente,
aos autores de obras literárias nas categorias romance,
poesia, literatura infantil, conto e dramaturgia.
O resultado
concurso deverá – conforme está sendo
planejado – ser anunciado no dia 10 de agosto do próximo
ano, coincidindo com a data de nascimento do festejado autor,
e os laureados receberão o prêmio em valor pecuniário,
tendo suas obras publicadas pela gráfica do Senado.
Apesar de o projeto do decreto legislativo, que instituiu
a premiação, ter sido de autoria do deputado
Severiano Alves, o pai da idéia foi o poeta Milton
Enedino Gama, autor de, entre outras publicações,
Poema Bêbado, certamente um dos raros preciosos momentos
da poesia de qualidade na Bahia.
A idéia
fora gerada em meio à gestação de versos
que Enedino costuma cometer ao longo das madrugadas silenciosas
que atravessa pilotando sentimentos em direção
ao poente. Mas teria pensado o poeta;
uma homenagem
deste porte, que envolvesse todos os brasis, rasgando espaços
e ensejando a reciprocidade da homenagem através de
um concurso de âmbito nacional em que, ao ser homenageado,
o autor indiretamente proporcionaria a outros a oportunidade
valiosa de ser editado, ainda não acontecera. |
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 Daí,
a via direta do endereço do Congresso Nacional, evitando
os atropelos nefastos, as malogradas pendências que
costumam se eternizar quando o assunto é editoração
de, digamos “anônimos”, com premiação
significativa como, ao que tudo indica, será o em tela.
Da mesma forma, o fato de a premiação proceder
de meios institucionais não deve causar melindres,
já que o importante e axiomático é a
idéia em si, simples e pura, de que à uma altura
dessas não se imaginara uma homenagem de tal porte
ao mais universal dos escritores baianos, quiçá,
brasileiros. Não há qualquer desdouro, afinal
o prêmio é, ou deverá sê-lo, tão
nacional quanto o próprio congresso de cujas entranhas
surgiu o aval para a materialização da idéia
et por cause a apropriada homenagem forma de letra.
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INCENTIVO
CULTURAL
Assim,
a justificativa para a homenagem-premiação
vem, também, e sem trocadilho, em letras de fôrma
e linguagem acadêmica ao lembrar que, pelo menos
teoricamente e com raras e honrosas exceções
– e a do escritor Jorge Amado encaixa-se como
uma luva de pelica na tese – a Constituição
Brasileira, consentânea com o ideário da
modernidade, atribuiu ao poder público a tarefa
de promover, apoiar e incentivar as manifestações
culturais do País. Entre essas manifestações
que, segundo a nossa Carta maior, constituem bens culturais
integrantes do patrimônio cultural brasileiro,
estão as formas de expressão, as criações
artísticas e literárias.
Vertendo
para a realidade, a nomeação do prêmio
literário justifica-se pelo fato de ser Jorge
Amado um expoente de nossa literatura, com projeção
internacional, sendo o autor brasileiro com mais obras
literárias traduzidas no exterior, etecetra e
tal. Vale assinalar que seu nome já recebeu várias
indicações para o Nobel. Acredita-se que
a idéia-proposta chega coroada de unanimidade.
E não poderia ser diferente, mesmo porque seu
próprio sobrenome não deixaria dúvidas,
sem falar na espontaneidade com que sempre brindou –
pelo menos com palavras de incentivo – os que
se aventuravam na trilha espinhosa e incerta que consagrou
o marido de D. Zélia.
Aliás,
o relator do projeto instituição do Prêmio
Jorge Amado de Literatura Brasileira, deputado Álvaro
Vale, não deixa dúvidas quanto à
sua importância:
“Jorge
Amado, criador de uma baianidade que não é
regional, torna o Brasil mais brasileiro. Consegue ser
sincrético, respeitando a fé católica
(que nasceu na Bahia), e sua convivência com as
seitas afro-brasileiras, que enriquecem nossos costumes
e nosso folclore. Se algum dia se quiser construir um
monumento à brasilidade, com as nossas características,
nossos símbolos e nossa miscigenação,
certamente o modelo escolhido será Gabriela,
a quem tem cheiro de canela... Mas se a baianidade não
exclui a brasilidade, ao contrário, completa-a
e a enriquece, Jorge Amado também não
se afasta do mundo de que a Bahia, sob certos aspectos,
é síntese...”.
O
projeto remete à Mesa do Congresso Nacional as
atribuições de expedir as normas necessárias
para a outorga do prêmio; fixar, anualmente, através
de edital, o valor do prêmio que será concedido
aos vencedores; designar uma comissão executiva
do prêmio a ser constituída por representantes
do Poder Legislativo Federal, do Ministério da
Cultura, do Conselho Nacional de Educação,
da Academia brasileira de Letrase do Conselho nacional
da Indústria. Os agraciados terão suas
obras publicadas pela gráfica do Senado. A participação
do CNI na premiação literária justifica-se
pela necessidade de envolvimento mais efetivo do segmento
empresarial em ações que contribuam para
o desenvolvimento da cultura brasileira.
O
DONO DA IDÉIA
O
pai da idéia que resultou no Prêmio Jorge
Amado de Literatura Brasileira é um sujeito no
mínimo “arretado”, para não
dizer corajoso. Baiano de Caldeirão Grande –
sertanejo, portanto –, Milton de Enedino Gama
teve a petulância de mandar às favas as
atividades de empresário e tentar viver de poesia,
sem preocupação com tempo, crítica
ou avaliações que, seguramente, não
comportariam no alforje da sua criatividade. Autor de
inúmeras páginas engavetadas, pôs
a lume Poema Bêbado, um trabalho primoroso, renovador
e inspirado, lançado em 1989 e logo com repeteco
em 2ª. edição, com direito a capa
de Juarez Paraíso e ilustração
de diversos nomes consagrados.
Ao
sugerir o prêmio, Enedino propôs que cada
categoria vencedora venha a ser ilustrada por um pintor
brasileiro. “Toda cultura, ou ramificações
culturais vem, através dos tempos, sob a forma
da escrita da arte”, assinala, enfatizando a importância
de tal conjugação, com um sotaque nordestino
que contrasta com sua estampa germânica, enquanto
conclui e louva a iniciativa do deputado Severino Alves
e, por tabela, o Congresso Nacional: “São
os escritores, poetas e artistas, a alavanca de todas
as manifestações culturais, conforme está
provendo historicamente”. Em meados de setembro,
Enedino pretende lançar Vinícola de Paixões,
com capa de Carybé e ilustrações
de Calasans Neto. Antes, Enedino põe na praça
um compêndio popular com informações
variadas, pela Editora Prodabase, resultado de 12 anos
de pesquisa.
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PONTOS
DE VISTA
“Jorge Amado é, hoje, o patriarca
das letras baianas, e todos nos devemos muito a ele. Trata-se
de um homem universal pela experiência de vida. Idealista
ao extremo, Jorge é, entretanto, incendiário
e bombeiro. Seu amor à Bahia já está
consagrado, e qualquer homenagem que lhe for prestada, a exemplo
de um prêmio desse significado, a bahia também
receberá os louros”
(Remy de Souza).
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“A idéia de um prêmio deste porte realmente
deveria ter sido instituída há muito tempo,
já que Jorge de há muito merecia uma homenagem
dessas. Trata-se de um reconhecimento que, de qualquer forma,
traduz a importância da obra de um escritor que projetou
a literatura brasileira a outros confins nunca possivelmente
atingidos por esse meio. Amigo há quase 60 anos do
homenageado, não poderia ter outra sensação
senão a de orgulho, pois qualquer alusão que
a ele é feita traduz, repito, uma forma de reconhecimento”
(Carybé).
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"O premio é muito significativo para a
Bahia e todo o seu meio literário, além de uma
homenagem a esse que é o mais importante escritor brasileiro
vivo. Jorge Amado não representa apenas a literatura
brasileira. É, também, uma das figuras mais
combativas em defesa dos seus ideais e dos menos favorecidos.
Ele traduz, em síntese, a alma desse povo a quem sempre
procurou acompanhar, principalmente quando luta contra a opressão,
e a iniciativa de um prêmio de tal porte deverá
ser aplaudida por todo o povo brasileiro e, certamente latino-americano”(Calasans
Neto). |
A TARDE - Quarta-Feira - 24/7/1996

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