"Um País se faz com homens e livros"
Monteiro Lobato (1882)
 

 

 

- Papai, conta uma estória.
Pediu a menina, toda dengosa.

- E qual? Perguntou o pai, afagando
os cabelos loirinhos da filha.

- A do “Menino que não matava passarinho”.

- Conta, papai! Conta, conta papai!

- Só conto se você pedir a mamãe para
abrir uma garrafa de vinho, disse, olhando
rindo carinhosamente para a mulher.

- Mamãe, abre a garrafa de vinho do papai,
pediu com a voz bem meiga e suave.

- Está bem, vamos buscar o vinho
enquanto seu pai vai se lembrando
da estória – falou a mãe rindo.
Assim que o pai saboreou um pouco
De vinho, a menina choramingou.
- Conta, papai! Conta, conta logo!

- Era uma vez um “Menino que não matava passarinho”.
- Não, papai, não começa assim.

- Ah! sim – bebeu mais um pouco de vinho

Era uma vez um velhinho,
ele era tão velhinho que sua barba e os cabelos
eram branquinhos que parecia neve e eram
tão grandes que passavam dos joelhos. Era
um velhinho baixinho, sempre risonho e
brincalhão. Ninguém sabia quantos anos
tinha nem ele mesmo sabia, mas todas as
crianças gostavam dele, pois ele era um
grande contador de estórias.

Ele morava numa caverna, era uma
caverna bonita. Na frente tinha um pomar
com muitas mangueiras, muitos
cajueiros, muitos pés de sapotis, e
muitos pés de frutas como maçã, pêra,
uva, mamão, banana, abacaxi, laranja e outras
árvores frutíferas. Do lado esquerdo
corria um rio de águas claras, mais
embaixo formava uma lagoa grande e bonita,
com muitos cisnes, patos, gansos e
muitas outras aves aquáticas. No lado
direito tinha uma plantação de cereais,
como trigo, arroz, milho, feijão e outras
variedades.
... E na beira do rio o velhinho tinha
uma horta onde cultivava cenoura, alho,
cebola, batata, alface, tomate, couve,
chicória e muitas outras hortaliças. Lá
mais embaixo, perto da lagoa pastavam
umas ovelhas que o velhinho criava para
tirar a lã para fazer tecidos, umas vacas
para o velhinho tirar leite e beber, e
uns cavalos de montaria, para o velhinho
montar e passear pela floresta. Era um
lugar bonito e bom para se viver – saboreou
o pai um pouco de vinho, e ficou um instante
pensativo.

- Conta logo, papai!

- Ah! sim, balbuciou o pai, olhando para a
filha e afagando os cabelos da menina, rindo
e abraçando carinhosamente a mulher.

Alí toda tardinha as crianças
iam tomar banho no rio, comer frutas no
pomar do velhinho e depois pedir para ele
contar uma estória.

Então o velhinho dizia que só
contava estória de noite. Se eu contar
de dia vai nascer um rabo igual ao do
macaco em vocês – dizia o velhinho da
barba e os cabelos branquinhos, e as
crianças, umas riam, umas ficavam sérias,
e outras olhavam para trás, preocupadas
de ter nascido um rabo.

- Ah! bom, falou o velhinho: vocês
já tomaram banho e enquanto não anoitece
eu vou pescar uns peixes para fazer uns
sanduíches para vocês, depois eu conto
uma estória.

- OBA, gritaram as crianças.

- Vamos todos para o rio, disse o velhinho.

Aí, quando ele chegou na beira
do rio começou a assobiar, fiu ... fiu ... fiu
fiiiiu ... fiiiiu ... fiiiiu ... aí os peixes
começaram a chegar na beirada do rio. Quando
já tinha uma boa quantidade, o velhinho
jogou uma rede feita de algodão, a rede
veio cheia de peixes grandes e pequenos.

- OBA! vamos comer todos – falou uma criança.

- Calma, falou o velhinho: vocês são
doze, ele separou seis peixes, e
disse: uma banda de peixe para cada criança.

- E a do senhor? Perguntou um menino.

- Eu faço das cabeças dos peixes uma sopa
que será dividida entre todos, e como eu
já estou velhinho, eu como o pão com
um pouco de sopa. Os meninos riram.

- Aí, o velhinho olhou para as crianças
e disse: é sempre bom devolver para o
rio os peixes pequenos. Dizendo isso foi
colocando na água do rio os peixes que
sobraram.

- Por quê? Perguntou um menino.

- Porque os pequenos precisam crescer.
- respondeu o velhinho rindo baixinho.

- Para quê? Perguntou outro menino.

- Para cuidar dos outros mais pequenos,
respondeu o velhinho dando uma boa risada.

- Ah! bom vamos preparar os sanduíches.
E voltaram para a caverna.

- Conte logo papai – pediu a
menina olhando para ele degustando o
vinho, rindo para mãe, também saboreando
outra taça de vinho ...

- Ah! sim, aí, o velhinho fez os
sanduíches, fez a sopa com as cabeças dos
peixes e todos se alimentaram.

Ah! bom, já que está todo mundo
com a barriguinha cheia, eu vou contar,
hoje, a estória mais bonita que eu sei,
porque amanhã eu vou me mudar.

- O senhor vai para onde? Perguntaram
as crianças assustadas.

- Aí, o velhinho olhou lá para o
fim do mar onde começa o céu e disse:

- Ah! bom, eu vou para um lugar bem perto
de vocês - calma eu volto para brincar,
mas vamos à estória.

- Conte logo – falou um pequenininho
com a boca cheia de pão.

Ah! bom, essa estória aconteceu no
tempo que todos os bichos falavam – foi
dizendo o velhinho da barba e os cabelos
branquinhos ...

... Era uma vez ... Era uma vez ...
Um menino que não matava passarinho.
Ele era muito amigo dos animais,
e todos os bichos gostavam do menino,
inclusive os bichos grandes e falantes
como o homem – era um bom menino.

Ah! bom, aí um dia ele estava
pescando no rio, quando ouviu vozes de
crianças chorando e gritando pelas mães,
pelos pais, por Deus e por todos os
Santos lá do céu. O menino levantou-se
e saiu caminhando na direção dos
gritos das crianças, aí ele viu três
gaiolas grandes cheias de crianças presas
e chorando, e em cima das gaiolas havia
centenas de passarinhos na maior discussão,
aí quando o menino chegou perto, um
canário gritou: lá vem outro matador de
passarinho, pega ele aí amiga onça e
prende naquela gaiola menor, deixa ele
sozinho, pois ele é muito conversador. E
assim foi feito. A onça prendeu o menino.

Ah! bom, aí o menino olhou para
o canário e para a onça e rindo olhou
para os passarinhos que voavam, pulavam de
galho em galho e cantavam por ver os
meninos presos naquelas gaiolas feias,
aí o canário que chefiava os passarinhos
cantou num forte estalido: ... silêncio ...
silêncio ... silêncio ... silêncio ... silêncio
- Vai começar a reunião, e todos os
representantes dos passarinhos estão
convidados a sentarem em cima destas
gaiolas onde estão presas as crianças
que prendem e matam passarinhos, e
assim foi feito.

Os passarinhos sentaram e começaram
a discutir o destino das crianças. Uns
achavam que deviam entregar as crianças
para a onça comer, outros achavam que deviam
deixá-las presas nas gaiolas, e outros ainda
achavam que deviam fazer um acordo de PAZ
com as crianças. E esta discussão foi
até de tardinha, sem nenhuma conclusão.

- Bem – falou o canário: já que não
chegamos a nenhum acordo, fica convocada
uma nova reunião para o 3º dia de Lua
Cheia, sob a presidência do nosso
Pacificador Amigo Pombo. Dizendo isso,
olhou para as gaiolas e disparou – é
bom alimentar bem esses meninos, pois
nossa amiga onça não gosta de comer
criança magra. É para dobrar a ração.
Está encerrada a reunião.

Ah! bom, aí no 3º dia de Lua
Cheia chegou o Pombo. Era um Pombo forte
com as asas branquinhas e as penas num
tom azulado e o bico era prateado. Tinha
personalidade, era meigo e muito bonito.
- Bom dia, para todos – falou o Pombo.
- Bom dia – responderam os passarinhos
sentados em cima das gaiolas onde estavam
presas as crianças.

Nós resolvemos lhe convidar para
o amigo presidir esta votação aberta,
porque chegamos à conclusão que o voto
secreto não representa a vontade verdadeira -
disse o canário, todo imponente na sua
posição de Chefe da Sociedade dos Passarinhos.

Encontravam-se sentados os três mais
notáveis representantes dos passarinhos: o
Canário, o Cardeal, o Sabiá e ao redor, nas
árvores, todos os representantes dos passarinhos
mais importantes, como o Curió, o Pássaro-preto,
o Bem-te-vi, o Sofrer, e mais em volta eram
milhares de passarinhos pulando de galho em
galho e cantando. Uns a favor de entregar os
meninos à onça, outros a favor de deixar presos
nas gaiolas, e outros a favor de fazer um
acordo de PAZ com as crianças.

Ah! bom, aí o Pombo sentou na gaiola
que estava preso o menino sozinho – ergueu o
peito para cima e falou com a voz suave e
possante: esta é uma reunião muito importante,
é bom pensar antes de julgar as crianças,
repito: é bom pensar antes de julgar uma
criança.

Os passarinhos ouviram em silêncio e
em silêncio permaneceram.

- Ah! muito bem – falou o Pombo com a
voz suave e forte:

Primeiro - Quem for a favor de entregar os
meninos à onça; diga: SIM, sou a
favor de entregar as crianças a onça.

Segundo - Quem for a favor da prisão dos
meninos nas gaiolas; diga: SIM,
sou a favor da prisão das crianças
nas gaiolas.

Terceiro - Quem for a favor de fazer um acordo
de PAZ com os meninos; diga: SIM,
sou a favor de fazer um acordo de PAZ
com as crianças.

O Pombo sério e sereno, perguntou ao
Canário: Qual é o seu voto?

O Canário empinou o pescoço, sacudiu
as penas amarelinhas e estalou um canto alto
e estridente olhando as árvores onde
estavam os passarinhos notáveis e cantou:

- SIM, sou a favor de entregar as
crianças à onça.

Em seguida ouviram os estalidos dos
passarinhos aplaudindo o voto do Canário,
principalmente dos Canários voando de uma
árvore para outra. Depois de algum tempo fez-se
um silêncio melancólico.

- Qual o seu voto? perguntou o Pombo,
ainda mais sério, ao Cardeal.

O Cardeal se peneirou, abriu as asas,
mostrou o seu corpo colorido, assobiou um som
indefinido e cantou; olhando para todos os lados:

- SIM, sou a favor da prisão das crianças
nas gaiolas.

Os passarinhos que estavam nas árvores
olharam-se uns aos outros e começaram a cantar
meio sem graça. De repente, começaram a voar
de árvore em árvore, cantando baixinho – até
que se silêncio.

Ouviram o Pombo com sua voz possante e
firme falar:

- Sabiá, você que estava preso
nesta gaiola, onde agora eu estou sentado, com
uma única criança presa, parece ser esta
criança importante, porque ela não chora,
ao contrário das outras crianças, ela está
tranquila e sorrindo.
- Qual é o seu voto, Sabiá?
O Sabiá levantou-se sóbrio e sereno,
e olhou para os passarinhos notáveis, olhou
para os passarinhos das outras árvores, e
sobrevoou pela planície ... plainou sobre todas
as árvores ... sobre os passarinhos notáveis ...
e sobre as gaiolas onde estavam presas as
crianças e cantou suavemente:

- SIM, sou a favor de fazer um acordo
de PAZ com as crianças.

Os passarinhos ficaram por algum
tempo em silêncio, olhando para o Sabiá, e
começaram acompanhar a harmonia do canto do
Sabiá. O PACIFICADOR POMBO cantou uma
poesia em forma de canção:

Venham comigo crianças
Sejamos todos amiguinhos
Venham nas asas da esperança
Sejamos todos passarinhos

Vamos nos dar as mãos
Vamos viver o destino
Vamos ouvir o coração
Vamos viver esse hino

Nosso sentimento é capaz
Unidos todos nesse ninho
Vamos brincando em PAZ
Árvore, criança e passarinho

Vamos na suave correnteza
Vivendo vamos cantar
Convivendo com a natureza
Vamos desaguar no mar.


- Ah! bom, vamos dormir, amanhã eu termino de
contar a estória – disse o velhinho.

- Ah! Não senhor! E o menino que não
matava passarinho – perguntou, curioso, o
menino pequenininho ainda com um pedaço de
pão na mão.

- Ah! bom, vocês hoje vão dormir
aqui, e como hoje é noite de Lua Cheia,
e quando o Sol estiver se encontrando com
a Lua, e as Estrelas ainda brilhando no
Céu, todos vocês estarão acordados e eu
conto o final da estória. E dizendo isso
estalou os dedos e a porta da caverna se
abriu - vamos entrar crianças que hoje eu
vou lhes mostrar minha casa. Os meninos
entraram e ficaram admirados. Era um salão
todo de ouro - o velhinho estalou os dedos,
abriu outra porta, era um salão todo de
prata - o velhinho estalou os dedos abriu
outra porta, era um salão todo de cristal
- o velhinho estalou os dedos abriu outra
porta, era um quarto grande, as paredes eram
de mármore branco todinhas revestidas de
pedras preciosas ... esmeraldas ... rubis ...
brilhantes ... diamantes ... pérolas. Os
meninos ficaram de olhos arregalados diante
de tantas cores, e da beleza do quarto.

- OBA! O senhor é muito rico e
ninguém sabia – falou o menino pequenininho
com a boca cheia de pão.

- Ah! bom, vocês vão dormir neste
bonito quarto, e vão sonhar com muitas coisas
boas - e estalou os dedos, e os meninos caíram num sono
profundo.

O pai brindou com a mãe mais uma
taça de vinho e a filha olhando riu o riso
da beleza de ser criança.

- Conta logo papai, conta senão
senão eu ... eu durmo – pediu a menina.

- Aí, quando as crianças
acordaram viram o velhinho tirando leite
de uma das vacas, aí elas beberam leite,
comeram maçãs, comeram bananas, chuparam
mangas, e outras frutas.

- Conta o fim da estória, pediu o
menino pequenininho com uma maçã na mão.

- Ah! bom, venham comigo até a beira do
rio - pegou a mão do menininho e saíram
em direção ao rio, acompanhados pelas outras
crianças, e disse: olhem para o Céu ...
a Lua está Cheia ... as Estrelas ainda estão
brilhando ... o Sol está nascendo ... todo o
Universo é bonito ... mas eu vou mostrar a
maior riqueza da Terra. Vocês fiquem onde
estão, parados e olhem para mim. Aí o
velhinho saiu caminhando devagarinho ...
os cabelos e a barba iam virando penas alvinhas
... e as crianças iam vendo o velhinho se
transformando num Pombo das asas brancas ...
o corpo azulado ... o bico brilhante ... e voou
em direção a caverna. Sentou na pedra e virou menino
e falou para as crianças: quando eu entrar
na caverna o Sol e a Lua se encontrarão ... aí
vocês aprenderão uma bonita canção.

As crianças estavam encantadas e
olharam o Velhinho que virou Pombo, que virou
Menino ao entrar na caverna ... e de dentro da
caverna começou a correr um riacho de águas
cristalinas ... azuladas ... esverdeadas em direção
ao rio ... e as crianças entraram no riacho
embaladas pelos cantos dos passarinhos. Ouviram
a voz do Pombo cantando com as águas do riacho
esta poesia em forma de canção:

Venham comigo crianças
Sejamos todos amiguinhos
Venham nas asas da esperança
Sejamos todos passarinhos

Vamos nos dar as mãos
Vamos viver o destino
Vamos ouvir o coração
Vamos viver esse hino

Nosso sentimento é capaz
Unidos todos nesse ninho
Vamos brincando em Paz
Árvore, criança e passarinho

Vamos na suave correnteza
Vivendo vamos cantar
Convivendo com a natureza
Vamos desaguar no mar.


Milton Enedino Gama