"Um País se faz com homens e livros"
Monteiro Lobato (1882)


Por Jorge Amado

“Poeta de largo fôlego, Milton de Enedino Gama”,
escreve Carlos Eduardo da Rocha, ele Próprio
poeta. Carlos Eduardo sabe das coisas. Quanto
a mim, após ter lido “Poema Bêbado” que
Juarez Paraíso me enviou no Natal, concordo
inteiramente com a opinião do prefaciador.
Gostei de ter encontrado em terras da Europa
o poeta Enedino tão brasileiro e tão povo
brasileiro. Gostei desde o começo:
“eu queria que chovesse vinho
ver em cada mão uma taça
em cada semblante um riso”
simples e terno, o peso social e a aventura
da vida, o vinho sinônimo da alegria verdadeira.
Gostei até o fim, até o encontro com:
“esse rosto
esses olhos
esse brilho
já existiam nos meus sonhos”
quando o poeta encontra o amor. Gostei da
Dose nº 2(autobiografia?), Da nº 13 por exemplo,
do poema para Vinícius de Morais - não será o
poeta Milton de Enedino descendente de Vinícius?
Para tudo dizer, gostei do livro, do Poema Bêbado
inteiro, de cada uma das Doses.
Agradeço a Juarez o envio e desejo ao Poeta
o sucesso que ele bem merece.

Jorge Amado
Em Cascais,Portugal,janeiro de 1992

 

 

 

 

 

 

 

 



 
 
 
 
 


 

 

 

 









trës
coisas
me divertem
nessa pirâmide
a incoerência do
homem em criar o poder
e não controlar fantasiar-se
de palhaço para rir e não ver que
o Mar é uma grande orquestra a Vida
uma bela festa e não aprender a dançar

Milton Gama














 



 


A TAÇA

palavras formam frases
fazendo períodos
imaginando textos

palavras frases períodos
e textos
sonham sendo prosa livre

e a poesia com musicalidade
afaga a concordância verbal
tinha no tempo da liberdade
vivendo o desejo sentimental



Milton Gama
















 


DOSE UNIVERSAL


nuvens se movimentam
o véu da penumbra cobre
o mundo

trombetas ecoam no infinito
iluminadas por raios celestiais
é bonito

o vento sopra a esperança
as árvores dançam
soltas faceiras e alegres
é a bonança

a terra se abre
exalando o cheiro da fêmea
seca-ardente

a água cai penetrando
em movimentos eloqüentes
ora suaves ora frenéticos
é a volúpia

quando já toda preenchida
transbordando sobre o corpo
a fragrância da vida
as crianças brincam e bebem
esse vinho universal

os animais saem dos abrigos
pulando cantando falando
respirando a brisa viva
sem perceber toda importância
dessa fecundação antiga

as pedras silenciosas
que ainda não foram presas
pelo medo dos homens
deitam e rolam
acompanhando o canto dos sapos
aplaudindo com fervor
esse bonito ato de amor
a chuva na terra

Ilustração
edson calmon
 

 

Milton Gama















 


DOSE Nº. 1

eu queria que chovesse
vinho

ver em cada mão uma taça
em cada semblante um riso

ver nos campos esverdeados
os animais embriagados
e nessa selvagem beleza
o homem amando a natureza

eu queria que chovesse
vinho

e ver o mundo brincar
em festa trabalho e paz


Milton Gama

















 


DOSE Nº. 2

para olímpia e enedino
meus pais

 

era uma vez um menino
menino do interior
amamentado com carinho
engatinhava na terra
solto petas ruas
tomava banho de chuva
na bica do sobrado velho
roubava fruta na feira
cocada na barraca do primo

era uma vez um menino
menino do interior
foi crescendo

livro na pasta
bola no campinho
expulso de escotas
andava pelos pastos
atrás de jumentas
amava também as meninas
o corpo chorava envolvido
entre o conselho e o castigo
severo dos velhos pais

era uma vez um menino
adolescente do interior
foi pensando

conheceu josé de alencar
beijou os lábios de iracema
viu jorge amado
amou gabriela
ouviu o cavaleiro da esperança
chorou com os capitães da areia
riu com monteiro lobato
passeou com érico veríssimo
olhando os lírios dos campos
sonhou com machado de assis
idolatrou castro alves
mordeu a isca da poesia

era uma vez um adolescente
adolescente do interior
foi pensando

andou com hermann hesse
vestido como sidarta
mergulhou nas florestas
em nascentes de rios límpidos
bebeu com Nirvana
ultrapassou os muros dos tempos
percorreu ruas das sociedades
envolveu-se com marx
papeou sobre as esquinas
visando tomeá-las
chocou-se em vielas

o peso da liberdade
fez na sua mente moradia
filosofou nos bares da vida
buscando sabedoria
afogou-se
em oceanos de frustrações
embarcações sem lemes
perdido entre perdidos
ironicamente anarquizado
viveu no cômodo mal-bom•viver
sentindo no luxo o lixo
sentindo no lixo o luxo
virou geléia geral
sob as fantasias dos líderes
serenamente evaporou
queria vida

era uma vez um homem
homem do mundo
foi vivendo

sem medo sem ódio
alto como o céu
cheio como a esperança
perpetuou-se na fortaleza
infinita da poesia




Milton Gama
















 


DOSE Nº. 3

paira no ar o hálito
do álcool da morte
no desespero a fuga

um líquido límpido
esmaga-me de encontro
a sólida razão

sinto a fome do mundo
vejo a sepultura estreita
sinto arder a sede de paz
bebo rindo a violência
minha mente se abre
descontraindo o corpo
esperando o amor

nas mãos jovens
fuzis brotam flores
dos corpos sem sangue
sai água regando
florescendo novo estágio de paz

 

no laboratório fabrica criança
torna eficaz o anticoncepcional
enxergo uma civilização decadente
de regimes mortíferos
em sistemas falidos
é a vivência das dúvidas
se perdendo nos fatos

abro a porta da verdade
o silêncio entra
as paredes riem
digo palavrões
é cômico é sério
abrem as prisões

metais forjam meu cérebro
creio no que não creio
vivo o que não vivo
talvez não sobrevivo
a próxima ressaca


ilton de Enedino Gama
















 


DOSE Nº. 4

gente
é possível voar
sobre os conceitos
fazer no espaço
da força física
um ar rarefeito
com pouso infinito
no espírito da esperança
gente
é possível sentir
nas prisões fúnebres
a liberdade agonizando
na garganta rouca
um grito surdo
em busca da voz roubada
gente
é possível pensar
no vagar do ego
dessa difícil estrada
fazendo nessa vida
todas as vidas
na simplicidade de viver
gente
é preciso ouvir um som límpido
para perceber as notas
eletrizando a concepção
da existência trópega
sem querer definição

gente
agora é preciso nascer
em terras adubadas
por mãos amigas
das flores ter o alimento
como o suave colibri
gente
agora é preciso crescer
buscar no semelhante
o afago das mãos
nessa corrente forte
fazer do brilho do sonho
a iluminação da vida
gente
agora mais do que tudo
é preciso amar
um simples encontro
nesse novo espaço
o pensamento é livre
os seios são alimentos
os corpos são camas
os espíritos são luzes
gente
agora é preciso viver
com a força de quem navega
na descoberta do próprio ser
gente é preciso ser gente

Milton Gama
















 


DOSE Nº. º 5

Ilustção
andrea hollnagel

se acontecer
abre a porta
deixa a presença dele
encher a casa
ilumina nos seus olhos
enxerga a paz
no seu corpo colorido

se acontecer
ouça sua voz
como se fosse música
afaga sua mão
como se fosse uma rosa
embriaga na sua filosofia
tornando um eterno bêbado


Milton Gama














 


DOSE Nº. º 6

 

música música e músicas
para acalmar os deuses

vinho vinho e vinhos
para elevar os espíritos

paz paz e pazes
para amar as vidas

amor amor e amores
para saciar os amantes

é preciso sentir
o som
o sabor
a felicidade
o calor
a intensidade do mistério
para se viver de verdade


Milton Gama











 

 




DOSE Nº. 7


nasci poeta
tenho convicção de viver
e morrer na órbita dos sonhos
chão batido forrado de aço
rosas metálicas em jarros plásticos
no ar os detritos dos detritos
mas resta o soluço
nos sonhos elásticos
nasci poeta
ser padre ser ladrão
não é minha opção
porque não zelador
de sanitário público
ou então uma bomba atômica
do tamanho da vida
não não
melhor um cínico
do tamanho do homem
mas resta o soluço
nos sonhos límpidos
nasci poeta
essa sede de ser amante
de ver as coisas em paz
essa busca sensível
anseios abstratos
parece que venho de horizontes
distantes distantes
vou embora fugir de mim
acompanhar os tempos
beijar as impurezas
ah! como gostaria de ser
essa fraqueza
mas eu nasci poeta
quero os laranjais
em todos quintais
ah! poeta vagabundo
sonhar demais é nunca dormir
dorme

 


Milton Gama
















 


DOSE Nº. 8

como criança
minhas lágrimas
se desfazem em risos

em cada dor
meu semblante
transmite o amor

como reflexo
colorindo o espaço
envolvo-me na vida
buscando o abraço

como pombo-correio
levo a mensagem
penetrando no meio
sem choques


Milton Gama
















 


DOSE Nº. 9

somos quase um todo
apesar da vivência
com medo de chorar
a sensibilidade amiga
eu busco você

essa loucura poética
faz parte da gente
e como nos procuramos
nesse caminho comum
eu busco você

eu um boêmio
poeta sem letras
da vida vaga
sem casa para morar
sou uma esperança
querendo se encontrar
na vasta caminhada
de sonhos a viver
eu busco você

em passos livres
dos pensamentos vividos
no animal no racional
o certo o incerto
essa equação sem fim
talvez exista uma razão
na simples maneira de conviver
eu encontro você


Milton Gama
















 


DOSE Nº. 10

agora surge uma luz
iluminando essa existência
fazendo festa
perto da solidão

agora surge um sonho
de quem nunca acordou
conjugando corpos
na cama cheia de mel

agora se abre um espaço
nessa vida
de quem pensa
encontrar a grande verdade

mas eu só queria
falar do amor
de quem beija uma criança
e de quem afaga a paz


Milton Gama
















 


DOSE Nº. 11

nos templos de Deuses
sem vitórias e vencidos

somos um oceano calmo
para uma tempestade violenta

somos um sussurro meigo
para um grito agudo

somos uma música suave
para um maestro áspero

somos uma visão nova
para uma experiência antiga

somos a vida
fecundada no amor
formando no universo
a planície da paz


Milton Gama


















 


DOSE Nº. 12

a noite é sonho
encanto vadio
companheira responsável
pelos poemas soluçados
solidão amiga

a noite é lembrança
do além vivido
luzes coloridas
verdades expandidas
vida recolhida

a noite é parceira
corpo sem cama
buscando pureza
beijando a lama
abraço perdido

a noite é mito
visão indefinida
horizontes embaçados
em lágrimas e alegrias
a noite somos nós


Milton Gama





 













 


DOSE Nº. 13

balança cabeça
nessa corda bamba
faz da força
como se fossem cores
pintando novos valores

relaxa corpo
tão grande tão pequeno
tresloucado nos efeitos
das imagens transcendentais
desse tempo inverso

ah! Fumaça santa
alegria alheia
no mar na sareia
vêm Deuses do homem
acorda esse tempo
liberta essa ansiedade


Milton Gama
















 


DOSE Nº. 14

essa fuga racional
beijando a beleza desconhecida
onde poderia viver
os sonhos das noites vividas
vem

solta essa solidão
grito contido
passos vigiados
liberta-se do medo
jardineira sem flores
vem

vamos amar no infinito
beijando todos os céus
e dormindo em todos os altares


Milton Gama
















 


DOSE Nº. 15

ilustração
paulo rufino

hoje lembro do vinho
da taça taça de mel
sonhos homéricos

estou sóbrio
farto dessas certezas
egoístas e radicais

o aço abre minhas veias
brindando no lugar do álcool
a lucidez dos chatos

cadê minha melancolia
cadê meu vinho cadê meu véu
cadê meu ninho cadê meu vinho
cadê meu CÉU


Milton Gama
















 


DOSE Nº. 16


toma-se vago
o espaço ocupado
enche-se de razões desconexas
o desequilíbrio vivido
num apressado véspera do nada

o futuro se contrai se abre
num devaneio de gargalhadas
deixando larvas históricas
para a contínua recomposição

torna-se cheio
o espaço vazio
experiências se somam
numa definição forjada
maliciosamente precipitada
numa sociedade estreita
de labirintos estudados


Milton Gama
















 


DOSE Nº. 17

para victor simon
o vagabundo

nasceu
para signo de vagabundo
no soluço indeciso
sentiu a dor do mundo
fecundar em suas entranhas
cresceu
na enxurrada do tempo
enlameando o corpo
em repúdio ao consciente
atacou a estrutura
pensou
sem hora para fazer
da sede fez a música
da fome fez o homem
da vontade fez a vida
viveu
no horizonte do sonho
e numa noite de lua
descobriu que a casa
também era sua


Milton Gama
















 


DOSE Nº. 18

hoje as pessoas
são exatamente
o que não são amanhã

e como as pessoas
não tem o hoje
muito menos o amanhã

pergunto simplesmente
como vai o ontem



Milton Gama
















 


DOSE Nº. 19

para rosalindo souza
o guerrilheiro

obrigado
por esse mundo hipócrita
dia a dia oferecido
gente pequena
gente grande
nesse famigerado usa desusa
não não tenho nada com isso
mas ainda gosto de vocês
obrigado

mas uma vez obrigado
pelas dores
pelas alegrias
pelos casebres de taipas
pelos palácios dourados
pelas histórias folclóricas
maquiavelmente impostas
obrigado

obrigado mesmo
aceitá-tas ou não
é uma simples opção
é um problema coletivo
entre abismos dos bens
são valas profundas
para funerais calculados
obrigado

obrigado pela imbecibdade
de tanta provocação
sâo forças explícitas
agora é chegada a hora

da coragem e do medo
ou ilumina a casa
ou não elimina o morcego
é...é obrigado


Milton Gama
















 


DOSE Nº. 20

como se fosse um corpo
transparente em transição
paro forço o equilíbrio
busco as formas das coisas
vago
lembro dos tempos de criança
certifico as razões adultas
viajo
sinto a força da criança
assumo a posição
quase sempre na defesa
não sei como atacar
o que está envelhecido

ser lobo ou carneiro
é melhor virar leão
comer lobo
depois virar carneio

voltar para as pastagens



Milton Gama
















 


DOSE Nº. 21

mundo enlatado
quase nada
Céu manchado

tempo esvaindo
rotina fria
lata explodindo

imponho e fecundo
na vida do sonho
um novo mundo


Milton Gama
















 


DOSE Nº. 22

a porta está fechada
o povo grita sem túnica
procurando um espaço
nessa casa única
fazendo da fome
a vontade de viver

ergue a taça
brinda a luta
onde anda o peixe
pescador de ilusão
o necessário é preciso

a terra é nossa
vamos abrir a casa
vamos fazer o quintal
vamos plantar o alimento
dessa morada geral


Milton Gama
















 


DOSE Nº. 23

existe uma fonte
banhando mentes
de corpos vazios
riso miserável
acorda filho da dúvida
vem
vem viver
terras adubadas
pássaros sem gaiolas
toda rua é espaço
avenida do querer
bate asas


Milton Gama
















 


DOSE Nº. 24

está solto
moleque vadio
força do ir
latifundiário
industria!
lavrador
operário coisa que o valha
são migalhas
abraça raízes
querendo crescer
sente o desespero
dessa máscara faminta
volta triste em pedaços
para o útero da vida


Milton Gama
















 


DOSE Nº. 25

ilustração
edsoleda santos

   
   

mulher
universo dos anseios
árvore frutífera
doce de sabor
sem perceber a importância
vaga
vaga na cadeia
entre correntes fracas
solta-se


enlaça na prática
o movimento da vida
nessa vontade natural
és passarinho pousando
onde a natureza plantou
as raízes do viver

mulher és terra fresca
adubando o homem
com ondas fortes
na calmaria do encontro

 


Milton Gama

















 


DOSE Nº. 26

quando nossas mãos
se encontram
brincando feito amantes
em cada movimento
dos dedos entrelaçados
é a volúpia
quando se apertam
suadas quase cansadas
é a ternura do gozo
na sublimação do amor


Milton Gama
















 


DOSE Nº. 27

fazer sonho é fazer vida
abstrato da poesia
faço de você poema de um dia

terça-feira de carnaval
corpo cansado mente aberta
lá estava eu e você devagar
divagando
soltando o laço da corda
perdidos na multidão
querendo se entranhar
soltar nossa solidão
soltamos

na volúpia tema e ardente
perpetuar esses momentos
bem que desejo ainda
o caminho desse corpo
navegar nessa chuva
nessa floresta humana

deixe-me imaginar o sol
as luzes resplandecendo
o calor das vozes soltas
dos ecos perdidos
no tempo que poderíamos ser
não fomos

ah! carinho que se foi
com vontade de ficar
ficou nas ramas
das árvores rasteiras
querendo crescer
crescendo

vamos sendo
as tentações dos amores
vividos em carnavais


Milton Gama
















 


DOSE Nº. 28

como é difícil viver
na sua doce plenitude
esse sonho inacabado

busco paz nas alturas
o verde vai de mansinho
o acalento vai também

agarro nas últimas veias
soluçando poemas
como é triste um poeta
morrendo de amor

ah! se você soubesse do mel
corpo de fogo mão de pétalas
ternura de paz todos os desejos
todas as camas são vazias
fêmeas fêmeas nada mais

oh! espírito de Vênus
ilumina essa vida
traz ao meu sonho
esse resto de sonho
que farei um sonho maior


Milton Gama
















 


DOSE Nº. 29

sonho sobre os sonhos
de uma rosa perdida
as vibrações coloridas
dão força para revivê-la
com mais vida
menina crescida
triste nas dores do mundo
meiga e agressiva
em andanças descontraídas
o tempo passa
entre aplausos
dançando o ritmo do amor
serás a dona da festa


Milton Gama
















 


DOSE Nº. 30

ela veio de longe
formas esculturais
eloqüente de desejo
se fez amante

nossos corpos alucinados
sussurrando delícias
frenéticos entranhados
sobrevoavam em todos espaços

era a ganância animal
louca e inesquecível
transpirava uma bela fêmea

às vezes fugia do tempo
numa busca incógnita
no silêncio do seu mundo

ela se foi
deixando resíduos
de uma grande mulher


Milton Gama
















 


DOSE Nº. 31

você veio como plumas
acariciando minha solidâo
nos olhos inspirando amor

mergulhei nos mistérios
senti nossos momentos
amigos talvez amantes

início de uma verdade
não sabemos onde
na lembrança na eternidade
dos velhos pensadores

vamos feitos criança
buscar essa bola
antes que desapareça
no quintal do mundo


Milton Gama
















 


DOSE Nº. 32

meu sonho na sua voz
é como o canto do sabiá
meu sonho no seu olhar
é como estrela cintilante

vocé foi um sonho forte
no aconchego da solidão
amda penso que existe

somos vidas feridas
mas existe uma saida
de corpos que são abraços

vamos brincar de ser gente
na claridade do amanhecer
vamos despertar o animal
na penumbra do entardecer


Milton Gama
















 


DOSE Nº. 33

quando você passa
enchendo os olhos da praça
com esse andar faceiro
de quem procura companheiro
você é a ilusão
quando você passa
enchendo os olhos da praça
com essa voz sussurrada
entoando a melodia encantada
você é a canção
quando você passa
enchendo os olhos da praça
com esse sorriso tesudo
nesses lábios carnudos
você é a paixão
quando você passa
enchendo os olhos da praça
com esse belo traseiro
balançando igual a coqueiro
você é a sedução
quando você passa
enchendo meus olhos de graça
ah! como eu gostaria
de viver essa alegria
molhar meu pincel por inteiro
nesses lábios carnudos
pintar nesse empinado traseiro
vários poemas tesudos


Milton Gama
















 


DOSE ESPECIAL

para katita e gama neto
vida e paz


vem menina tão linda
como a ternura de se dar
vem conhecer este poeta
com vontade de amar

namorar é nosso feitio
você vem como princesa
eu sou todo vadio

vamos sem nada saber
rindo de todos os risos
ah! vida de se viver

agora
nesse rosto de lua cheia
nessa barriga de lua nova
existe um pedaço de mim
como se fosse um beija-flor
solto procurando um jardim

vem filho
traz no semblante
a beleza do nascente
o encanto do poente
na ternura desse dia
há de ser um verso firme
puro néctar da poesia

 

sabe meu filho
o amor
essa força inconsciente
eleva e encanta a gente
a luz do seu templo
resplandece sobre a razão

o sentimento da poesia
é mais forte que os conceitos
mais leve que o ar
filho
a vida é como o céu
onde toda estrela é luz
mas só a que se movimenta
brilha
estou indo agora
mas não indo embora
não estou rindo
pois vou dividido
meu filho
somos um belo prolongamento
cheio de vida e um dia
entre a chuva e o verde
viveremos toda nossa alegria



 


Milton Gama
















 

TRIBUTO AO FÍGADO

para paulo rescala
o vívido

eu tenho um amigo
embalando meu coração
a casa dele é meu corpo
e somos uma bela canção

ele é o ritmo
eu sou a melodia
sem ele bem
não existe harmonia

eu sou a vida e sonho
ele é a festa e a vida
como somos compactos
é impossível haver despedida

quando driblo a inteligência
ele não reclama ele sente
e ri demonstrando paciência
ouvindo meu ego inconseqüente

é importante amar esse amigo
antes que algo aconteça comigo
sem ciúme meu amado coração
um brinde ao fígado nossa tesão


Milton Gama
















 


TRIBUTO AO PRIMEIRO DO ANO

nessa noite branca
o mundo se encanta

encanto bonito
na luz do infinito

infinita música
nas vozes telúricas

telúricbs amantes
por alguns instantes

instante espontâneo
alegria sem tamanho

nesse dia esperança
o homem é criança
e a vida se a paz
na beleza da paz
(e nesse calor humano
viva o primeiro do ano)


Milton Gama
















 


MESTRE RESCALA


a pintura


Revoada de cores brilham
nos Céus
Embelezando o colorido
do Olimpo
Sereno na doçura do sonho
cheio de vida
Caminha nos mistérios das estrelas
cheio de luz
Alma artística e fraternal
cheio de paz
Laureado pela sensibilidade
suave amante
Amiga e silenciosa de maria
pintou o amor


Milton Gama















 


TÔNIA CARRERO

a beleza

T ernura de uma beleza
infinita
O nde a força resplandece
a vida
N o sensual jeito de ser
mulher
I dolatrada pelos amantes
e amada
A ssim como todas as Deusas

C orpo feito com amor
A miga suave da sedução
R iso maior do espelho
R adiante como amanhecer
E nvolve na luz da poesia
R aios da bela Afrodite
O nde o sol a noite vai amar


Milton Gama








 

 


 

TRIBUTO A BRASÍLIA


Cidade prometida
Onde o espaço humaniza
A civilização arborizada
Sem o impacto do concreto

Cidade gente
Onde o homem em busca
Dialoga com o semelhante
Tornado numa casa amiga

Cidade beleza
Onde o conjunto das formas
Numa visão de harmonia e arte
Define em metrópole-interior

Cidade civilização
Onde o homem ultrapassa
Vivendo a lógica da vida
Sem a vergonha do meio

Cidade mulher
Onde ela descobre a razão de ser
Transpira por todo corpo o amor
Cidade gente do futuro


Milton Gama





 



alice
visualizando a beleza a ternura o amor
fiz esses poemas pensando em você
essa imagem linda
que me transmite tanta paz e ilumina
o sonho da poesia que existe em meu ser.



Milton Gama

 



 


PRIMEIRO POEMA

tinha que ser um dia bonito
estava escrito no Olimpo
era de manhã
um dia quase normal
se não fosse aquela tranqüilidade
era um dia como os outros
mas naquele eu sentia algo
algo novo
como se eu fosse ar
procurando uma vida
que me pudesse respirar
e andei
e como andei
mas tinha que ser um dia bonito
era noite
já cansado de tanto voar
já cansado de tanto beber
olhei vi senti
e a poesia fluiu
em versos bêbados e límpidos
ela também sentiu e despertou
e nessa abençoada quarta-feira de abril
iluminado pelos Deuses lá do Olimpo
nascia um verdadeiro e bonito amor


Milton Gama

















 

 

 


SEGUNDO POEMA

os meus olhos
têm o tamanho
do teu olhar

o meu sorriso
tem o tamanho
do teu brilho

a minha vontade
tem o tamanho
da tua ansiedade

a nossa vida
tem o tamanho
da verdade

vem vamos ser
o encanto
desse amor


Milton Gama
















 


TERCElRO POEMA


sinto um cheiro novo
de uma pétala macia
acariciando meu rosto
navegando meu corpo
faço-me jardim
vejo o beija-flor
cantando dançando
o ritmo vivo do amor


Milton Gama
















 


QUARTO POEMA

esse brilho
será uma força
de horizonte distante
ou uma simples vida
querendo viver

somos novos sonhos
em vidas antigas
somos raiz profunda
brotando nova planta
com flores do amor

beijando o sol
penetrando na lua
e o bonito universo
escrevendo na nossa vida
mais um verso
como se fôssemos poemas
em nuvens de bolhas de luz
colorindo com amor a poesia


Milton Gama
















 


QUINTO POEMA

é estranho
essa sinfonia de sentimentos
sensação forte
vou nesse abraço
navegante de amor
é estranho
essa sinfonia de sentimentos
já não sei se é noite ou dia
se a onda é tormento
ou se o sonho é vento
embalando nossa alegria
é estranho
essa sinfonia de sentimentos
envolvida de felicidade
acalmando a tristeza
entre o sol e a lua
e unificando a beleza
de nossa vida bela e nua



Milton Gama
















 


SEXTO POEMA

esse rosto
esses olhos
esse brilho
já existiam nos meus sonhos
essa voz
essa meiguice
essa música
já existiam nos meus sonhos
esse corpo
esse andar
esse calor
já existiam nos meus sonhos
esse amor
esse fogo
esse carinho
já existiam nos seus sonhos
e esse ano do encontro
será eterno no tempo
da nossa vida do nosso amor


Milton Gama
















 


SÉTIMO POEMA

ilustração
márcia magno

eu queria
um entardecer dourado
misturando o Céu e o Mar
dançando no arco-iris
as cores do amor

eu queria
um anoitecer romântico
com saudade do dia
num Céu iluminado
colorindo as estrelas
o halley que sonhei

eu queria
um amanhecer livre
um sol meigo
regendo o canto dos passarinhos
num ritmo forte e fagueiro
embalando as vidas nos berçários
eu queria ser esse dia
que alegria é seu aniversário


Milton Gama

 
















 


OITAVO POEMA

eu o homem
você a mulher
e Zeus batizou
com esse amor

unificados numa só
luz amplitude serena da vida
somos o sonho maior

e na festa dos amantes
os instrumentos brilham
ecoando nos horizontes
o bolero de ravel


Milton Gama
















 


ÚLTIMA DOSE

quando
o homem se despir
e buscar a verdade
no sentimento da vida
direi somos autênticos

quarto
a teoria de darwim
deixar de ser praticada
e a vida for alimentada
direi somos humanos

quando a violência constante
juntar se ao perdão
a vingança for esquecida
direi somos pacíficos

quando
as ideologias em discórdias
aliarem-se numa só visão
buscando a plena realização
direi somos civilizados


Milton Gama
















 



TRIBUTO A CHICO MENDES

vai acontecer
um momento esplêndido
vai estarrecer
num vácuo estupendo

a ganância humana
na sua visão tacanha
fará da bacia amazônica
uma explosão atômica

nesse momento hilariante
nesse vazio retumbante
histérico bestial meteórico
não haverá registro heróico

as estrelas explodirão
o mar será um vulcão
entre lamentos alucinados
todos serão inanimados

está acontecendo
uma visão estupenda
está resplandecendo
uma luz esplêndida

as trombetas estão tocando
as consciências despertando
e nessa suave madrugada
ouve-se uma nova alvorada

é a orquestra de chico mendes
formada de gigantes a duendes
elevando o homem a leveza
de conviver com a natureza

Milton Gama